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PAPO DE BODE
O irmão Milas recebe em casa a visita
dos irmãos Otaner e Ramehda. A esposa de Milas auxilia na recepção e todos se
cumprimentam e se beijam. Com a alegria de sempre, eles se sentam e antes de
iniciarem as conversas, Milas pede à esposa:
- “Querida, por favor, peça à Maria
que providencie aquele cafezinho três ´efes` – fraco, frio e fedido pra esses
dois ´efes` - sorrindo, e antes de aparecer adjetivos maliciosos, completou:
“faltantes e fraternos”. Todos riem muito. Na verdade eles estavam pedindo
“cobertura de sala”, temporária, à cunhada. Ela entende muito bem, pede licença
e sai. Recomenda à empregada que prepare o café e volta afazer o que fazia antes
na saleta anexa: costurar a alça do avental de Milas que havia arrebentado.
Enquanto costura vai pensando: “Milas está engordando muito; precisa moderar
nesses... Como é mesmo aquela palavra que eles falam?
...a..ágape...isso...precisa diminuir esses ágapes semanais”. E a conversa na
sala principal e tão alta que chega a ser impossível deixar de ouvi-la.
- “Ontem eu estive na Quinta
Essência”, disse Otaner.
- “E ela é da Sereníssima?”, pergunta
Ramehda.
- “Lógico, é a 349. Foi uma sessão
pra lá de Jota e Pê. Não era Magna, todos estavam de balandrau, mas fizeram a
entrada de Past Máster com a abóbada de aço e estrelas. O Veeme comandou uma
bateria incessante. Depois esse Filho da Viúva apresentou uma senhora peça de
arquitetura. Falou de um obreiro que seguiu para o Oriente Eterno, depois de
trabalhar incessantemente nas Pedras Bruta e Polida e considerava o Livro da Lei
a obra máxima na Terra”.
Com a agulha e a linha, a cunhada vai
unindo novamente a alça do avental, mas, por mais que se esforce, não consegue
unir aquelas palavras a um sentido qualquer.
- “E eu estava, na semana passada, na
Era de Aquários, lá em Ribeirão”, fala Ramehda. “Eu nunca vi tantas colunas
gravadas na bolsa”! Eram pranchas e mais pranchas, muitas prévias, e um pedido
de Quit-Placet; todos ficaram surpresos, principalmente as luzes; fiquei com
pena do Secretário a medida que o Veeme ia decifrando, ele ia botando tudo
aquilo no balaústre. Também fiquei bobo de ver a quantidade de metais no Tronco.
“A única coisa que eu não gostei, foi quando eles formaram a cadeia para passar
a semestral, eu tive de ficar no Átrio”.
A esposa continua a não entender
bulhufas.
- “Mas é claro, se você não é do
Quadro...”, argumenta Milas. “Nesse caso não importa quantos degraus você subiu
na escada de Jacob. E, falando nisso...”, continua, “em junho participei de
trabalhos de banquete na Seguidores em Cruzeiro. Meti o meu ‘ne venetur’ no
livro e nem foi preciso ser trolhado. O betume estava delicioso e a pólvora
vermelha estava divina. Fizemos bons fogos. Na bem da Ordem, ou melhor sobre o
Ato, falei sobre alguns landmarks e depois agradeci”.
A cunhada já se considerando uma
estrangeira, serve o café em silêncio e momentos seguintes os irmãos se despedem
e se vão, após o tradicional “Que o Supremo Arquiteto os acompanhe”.
- Querido – pergunta a esposa – Por
que vocês não conversam como pessoas normais?”
Milas beija-lhe a fronte e, sorrindo,
responde:
- “Porque você é uma linda goteira!” |