Brasília,    
 

Carta de um profano a outro

Zé,

Preciso ti conta esta história.

Tava eu numa noite dessas procurando uma loja de coisas da tua profissão pra compra o seu presente de natal, quando encontrei um predião que me apontaram, tudo aceso, cheio de gente. Eta turma boa.

Perguntei: “Aqui é loja de pedreiros?” – Invés de resposta, só foi abraço. Descobriram logo que sou mecânico, Zé, porque todo mundo me perguntava onde ficava a minha oficina.

Lojona bonita aquela, com quadros, tapetes, ventiladores, até livro de visitas tinha que assiná. Gozado, com aquele calorão doido, queriam saber quantos graus estava fazendo e não tinha termômetro. Devia ta mais de 30, então “carquei” lá no livrão: 33. Acho que acertei na mosca, porque todo mundo me abraçava bastante.

Depois todo mundo entrou pro salão onde tava as mercadorias. Tinha cuié de pedreiro, prumo, nível, esquadro, alavanca, compasso, régua, até pedra. Tinha também mesas e cadeiras que não acabava mais. Acho que algumas dessas mesas tava com o tampo solto porque os caras pegaram uns martelinhos e começaram a bate. Até a porta devia está emperrada, porque um sujeito começou a batê com o cabo de um espeto.

Depois pensei que um indivíduo lá era cego. Perguntou onde sentava fulano..., onde sentava o sicrano..., queria saber que horas eram..., coitado! Teve um espírito de porco que falou pra ele que era meio-dia em ponto. E não e que ele acreditou!

Depois outro sujeito foi perto dele e começaram a cochichar aqui e ali. Um deles reclamou de um tal de Arão que fez um estrago com óleo. Disse que derramou na cabeça, na barba e no vestido de uma tal de Dona Orla. Confirmei qiu o cara era cego porque ele falou que a loja tava aberta e então olhei e vi que tava fechada. Nessa hora notei que até lá yoçê era conhecido. Sentiram sua falta e começaram a perguntar: “e o Zé?, e o Zé?, e o Zé?”.

Depois agüentei um tempão um sujeito falá umas baboseiras que não entendi nada e, até que enfim, mandaram as propostas. Veio outro sujeito recolher elas com saquinho e então mandei a minha: dava cinqüenta mangos naquela corda pindurada lá em cima, toda enroscada.

Sabe? O cara tava se fazendo mesmo de cego. Ele leu a minha proposta e não disse nada. Acho que fui munheca demais. Aí inventaram que estava chovendo, que tinha goteira na loja e acabaram me pondo pra fora.

Tá certo, Zé, era justo, era perfeito. Mas se acharam pouco o valor que eu escrevi, bem que podiam fazer uma contraproposta, não acha?

 

Autor desconhecido

 

 
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